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Mas é Carnaval… – por Miguel Franceschini Aranega

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Meu filho foi assaltado esta noite. Voltava de um bloco com um amigo quando dois pivetes – esses que nossos legisladores não acreditam em mudar a idade de responsabilidade – anunciaram o assalto e, de forma empreendedora, foram levando documentos, celular, enfim, o que é de praxe nestas situações tão corriqueiras.

Meu filho tem a vivência incipiente dos 16 anos de idade, o horizonte da mula de tapa-olhos. Um menino lindo, igual a tantos que acredita num monte de tolices, tais como, carnaval é bonito. Ele não mora comigo, mas recebe uma educação boa, estuda em bom colégio e é querido pelos colegas e professores. Tem um bom inglês, é faixa marrom no kick-boxing e ainda encontra tempo para dar aulas e participar de concursos literários.

Não me incluo no perfil, mas pais limitados criam filhos limitados. Eles dizem que carnaval era bonito no tempo deles e outras bobagens do gênero. Não é verdade! Carnaval é uma merda, sempre foi. – Mamãe fez esta fantasia quando eu tinha cinco anos… Oras, você tem dúvidas de que sua mãe já era resultado dos mesmos esquemas e sistemas? Carnaval é a maior prova de que uma distorção cultural pode ser atávica.

É normal, crescemos a partir do horizonte que nos servem. E brasileiros estão acostumados a esses horizontes surreais em que cores de lantejoulas e miçangas se misturam aos miasmas da formação distorcida de uma sociedade podre. Dizia meu ídolo Krishnamurti: – Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente.

E vamos ser claros, a sociedade brasileira está terminal. Glorificamos BBBs, Ronaldinhos gorduchos, “Voices” e outros casuísmos em detrimento da cultura, da saúde e principalmente da segurança.

Com cara dura, nossos juízes inocentam os bandidos políticos, e nós os mantemos na condução do país, pois as outras opções tampouco prestam ou são simplesmente incompetentes.

Não temos polícia, temos medo dela. Não temos saúde, temos medo de ficar doentes. Não temos educação, e como tal, não temos cultura, temos carnaval. Uma verdade tem que ser admitida por todos: não temos cultura mesmo. Temos simulacros, entretenimentos vulgares que por custarem pouco esforço, optamos por chamá-los de cultura, aceitamos como substitutos, sem perceber como alimentamos nossa ignorância.

E assim chamamos carnaval de cultura popular, um paradoxo em si mesmo, uma vez que muita coisa do que temos de popular, está longe de ser ou conter cultura. Temos alguns heróis que lutam por cultura e … Morrem tentando. Fato que desagrada: qualquer um que pense que carnaval é cultura não tem a menor noção acadêmica do que é cultura. É como um açougueiro dando opiniões a um cirurgião antes de uma operação.

Já desabafei, então ratifico: carnaval é uma criação imbecil e que serve aos que pensam que pensam. E como o brasileiro pensa que pensa… Não somos quase 200 milhões de técnicos de futebol? Cada um de nós não tem uma opinião formada sobre tudo? Nem vou entrar por aí…

Meu filho foi assaltado esta noite. Claro que me preocupou e ainda me preocupa. No meu papel de pai, sinto-me só e impotente diante da massificação estúpida que forma a personalidade dele no dia a dia. Já se foram os tempos em que um pai ou uma mãe podia dizer a um filho: nisso você não vai. E isso me emputece… E me frustra.

Também me preocupo se alguém ainda lembra o nome do cinegrafista que morreu nos protestos. Caso interesse, o nome dele era Santiago Andrade… E os juízes que enterraram de vez qualquer resquício de ética e moral no país, alguém guardou seus nomes?

Mas é carnaval… Vamos mijar nos muros…

Miguel Franceschini Aranega
Cronista, poeta e contador de causos
colaborador no Pitadas do Sal

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Jornalista, blogueiro, letrista, cantor em uma banda de rock, fã de música, quadrinhos e cinema