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A B#$*%@ cor de rosa e o grelo duro do Lula

Por que tentar sempre relativizar os problemas que não são seus?

A B#$*%@ cor de rosa e o grelo duro do Lula

– Fato 1 –

Compartilho em meu feed do Facebook a charge acima, do artista Jota Camelo, brilhantemente coerente com os acontecimentos ocorridos na semana passada, na Copa da Rússia. Em seguida surge um comentário:

Faltou a camisa com a frase "mulher de grelo duro"

Em uma clara tentativa de querer incluir Lula e o PT em qualquer assunto mais polêmico, que surja na Internet, o pior é  tentar relativizar um fato deplorável protagonizado por torcedores brasileiros. A crítica é sobre o que aconteceu na Rússia e que se repete em nossa sociedade e não o que o ex-presidente disse em uma conversa telefônica, retirada de um contexto.

 

– Fato 2 –

O execrável vídeo dos torcedores,  claramente machista e misógino, assediando a repórter russa viraliza e não tardam a surgir vários homens para, como sempre, relativizar que tal gesto era “normal”, ou que estavam fazendo muito barulho por pouca(?) coisa. Uns, inclusive, tentaram argumentar que o burburinho estaria expondo “pais de família”. Aliás, relativizar atitudes erradas em nossa sociedade machista é tão comum que já vi/li mulheres, em casos de estupro, culparem a vítima.

 

O peso de uma cultura machista, advinda dos primórdios do patriarcado do cristianismo, por volta do ano 1.250 a.C., liderados por Moisés (e mais tarde por Josué), é sentido ainda hoje, em pleno Século XXI. É inaceitável que se tente calar a voz das minorias, cada vez menos silenciosas, que clamam por respeito e igualdade. Não me venha com argumentos estapafúrdios e covardes do tipo que tentem diminuir qualquer manifestação ou denúncia de machismo, racismo e homofobia, declarando que é “só uma brincadeira”. Não é!

Quanto a querer colocar na conta do ex-presidente Lula o mesmo peso dado a uma “brincadeira” machista e imbecil, chega a ser hilário, o que vi acontecer bastante no Facebook e no Twitter por aqueles que acham que vivemos em uma “ditadura do politicamente correto”, numa tentativa covarde de desviar o verdadeiro assunto em pauta, digo que a charge do Jota Camelo está irretocável. O termo dito por Lula foi em um contexto totalmente diferente. Vulgar ou não, a frase foi dita em uma ligação telefônica “vazada” entre Lula e o ex-ministro dos Direitos Humanos Paulo Vannuchi. Nela (na gravação “vazada” ) Lula defende que as mulheres do PT têm de se manifestar contra o procurador de Rondônia Douglas Kirchner. O Lula diz: “Ele batia na mulher, levava a mulher no culto religioso, deixava ela sem comer, dava chibatada nela, sabe? Cadê as mulher de grelo duro lá do nosso partido?”. Se você acha que nesse contexto há  uma equivalência mínima sequer com os relatados na charge… não tenho o que argumentar com você, mas lamento. Isso só corrobora também o momento que vivemos, dessa polarização, onde ninguém ouve ninguém.

Embora a direita tenha tentado deturpar a expressão na época, querendo torná-la vulgar (o que pode até ser, isso é uma outra discussão) e algumas mulheres, sim, se sentiram ofendidas, muitas outras, incluindo feministas, empoderadas, defenderam o uso do termo, acharam engraçado e por que não usar? Por que não pode ser interpretado como algo bom? Por que só as expressões que falam do órgão masculino como algo que dá valor às coisas (bom pra caralho, botar o pau na mesa, fulano é pica) pode ser positiva e as que se referem ao órgão feminino não? Pode ser que algumas mulheres tenham se sentido “ofendidas”, mas, muitas mulheres maravilhosas, inteligentes e bem resolvidas que eu conheço acharam a expressão divertidíssima. As atitudes escrotas, machistas e misóginas, como foram os casos que apareceram na copa da Rússia não foram engraçadas, ninguém riu. E não quero dizer que não exista machismo na esquerda, há e muito também.

Sobre o fato que vi recorrente nas redes sociais, para justificar a atitude dos idiotas da Rússia, em que tentaram argumentar que a reação é outra quando isso ocorre a repórteres homens (exemplo no vídeo abaixo) é tão leviano que dá raiva. Homens não são vítimas de violência sexual, não vivem com medo de serem estuprados, não precisam se preocupar com a roupa que usam. Isso é tão rasteiro como ser branco e dizer que sofre racismo, ou dizer que é vítima de heterofobia por ser macho.

Não tente relativizar, diminuir, abafar, desvirtuar qualquer tentativa de minorias fazerem valer a  sua voz. A culpa nunca é da vítima. E se você é um homem, branco, cisgênero, não dê sua opinião contrária quando uma questão que oprime grupos historicamente excluídos vem à tona. Ninguém te pediu. Não pense que você está sendo “inteligentão” com opinião própria, quando no fundo você está sendo apenas reacionário. Feministas, Gays e Negros não querem ser maiores ou melhores que você. As reivindicações desses não implicam na perda de suas “liberdades” ou “vantagens” que vocês possuem por séculos.

Fomos criados em uma cultura machista e isso é muito forte para mudar de uma hora para outra, infelizmente, mas que bom que certos comportamentos, antes aceitos como ” brincadeira”, “normal” não mais tolerados, não cabem. O caminho para a desconstrução está sendo percorrido, não tenha medo de percorrer essa senda. E se você se contenta em ser essa pessoa menor e está satisfeita com sua mesquinhez, parabéns, só não tente barrar a trilha para os outros.

 

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Sobre Sal (394 Artigos)
Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

2 Comentários em A B#$*%@ cor de rosa e o grelo duro do Lula

  1. O Islã é que trata bem as mulheres, né camarada?

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