Um Romance Noir

Marlene Dietrich, em O Anjo Azul (1933)
Marlene Dietrich, em O Anjo Azul (1933)

Foi quando ela entrou pela porta dos fundos
A cidade fez-se mais silenciosa que de costume
A cortina de fumaça pelas largas avenidas remetiam a um romance noir escrito na 3º pessoa
Os carros cintilavam seus faróis nas grossas gotas da tempestade
Ela é a heroína de cinema mudo, com sua imagem irretocável
Exceto pelo rímel borrado por uma gota que insiste em escorrer por sua face

Muda, completamente alheia ao temporal
Cambaleante a cidade acolhe seus pensamentos
Encolhe seus medos…
Não era para ser assim”, ela sussurra num tom grave abafado pela canção

Quantos acordes cabem na canção?
Quantos cigarros amassados no cinzeiro serão necessários para lhe mostrar que a sorte lhe sorriu e se foi
Ela deixou escapar…
Não soube manter…
Errou na escolha

Foi quando ela sentou-se a mesa ao fundo do bar
O som da banda soou mais contundente que de costume
O salão enfumaçado pelos cigarros
Os olhos acesos reiteravam a promessa que não foi feita
Como num filme classe “C” recheado de clichês
A luz sobre o veludo verde
A luz dos seus olhos verdes

Ela era a heroína de um romance “pulp”
Com seus sonhos em branco e preto
Exceto pelo seu desejo secreto
Borrado pelo batom dos meus lábios…

por Ariston Sal Junior

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A Sombra do Vento

Sombra

A Sombra do Vento, do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafon, é uma declaração de amor apaixonada ao livro, esse objeto fascinante que nos conduz a lugares inimagináveis quando nos deixamos envolver por suas páginas. Em meu mundo utópico, as pessoas gostam muito de ler. =)

A Sombra do Vento foi publicado pela primeira vez em 2001 e conjuga os mais variados estilos literários, como o policial, o romance, o suspense e o terror, sem perder o viés da narrativa, sem cansar o leitor e sem deixar de exercer seu poder de fascinação. São mais de sete milhões de exemplares vendidos no mundo. E a história é a seguinte…

Tudo começa na Barcelona Franquista, de 1945. Daniel Sempere está completando 11 anos. Ao ver o filho triste por não conseguir mais se lembrar do rosto da mãe já falecida, seu pai lhe dá um presente marcante: Em uma madrugada fantasmagórica, leva-o a um sinistro lugar no coração do centro histórico da cidade, O Cemitério dos Livros Esquecidos. O local, conhecido de poucos barceloneses, é uma biblioteca secreta, cheia de labirintos, que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera de que alguém as descubra. É lá que Daniel encontra um exemplar de A Sombra do Vento, do também barcelonês Julián Carax e que mudará de uma vez a sua vida e de todos que o cercam.

Alexandre Dumas, Vitor Hugo, Edgard Alan Poe, são apenas algumas das referências que o leitor mais atento encontrará na narrativa empregada.

O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu, outros dois livros do autor, fazem parte da trilogia conhecida como “O Cemitério dos Livros Esquecidos.”

Se você ainda não leu e curte momentos agradáveis de boa leitura, passe na livraria mais próxima e adquira o seu exemplar sem medo. De uma coisa é certa. Prepare-se para ficar consumido em muitas horas do dia e da noite com o livro, mas serão horas bem empregadas. Você não conseguirá largar o livro quando entrar na trama e sentir-se inserido na Barcelona de Daniel Sempere.

Dados
A Sombra do Vento foi traduzido em mais de 30 idiomas e publicado em cerca de 45 países, e foi finalista dos prêmios literários espanhóis Fernando Lara 2001 e Llibreter 2002. Em Portugal, essa obra foi premiada com as Correntes d’Escritas, do ano de 2006.

Veteranos dos Bares

Café Terrace, Place du Forum, Arles - Van Gogh
Café Terrace, Place du Forum, Arles – Van Gogh


Só na noite é que saímos para lugares que já ficaram marcados no dia anterior. Onde nossos fantasmas, a nossa espera, guardam sempre um lugar para o dia seguinte.

Uns vão pro Baixo Leblon, outros pra Cidade-Baixa, alguns estão no Pontão do Lago Sul e têm os que vão para a Ladeira do Pelô, ou ainda pra suave brisa da Beira-Mar. Sem contar os sempre cheios da Vila Madalena.

Em qualquer lugar os bares, esse templo sagrado dos boêmios, reúne lindos personagens da cidade, oculta pelos olhos do dia, pela ausência de culpa, revelando segredos que o sol não consegue decifrar.

Nesses encontros, às vezes secretos, onde secretíssimos dialetos são desenvolvidos e ganham corpo. Nos templos etílicos das pequenas metrópoles e dos imensos povoados, seguimos em comunhão os rituais solenes, insolentes. A garrafa, o copo, a toalha, a mesa. Falamos da vida, dividimos nosso cotidiano, expomos nossas feridas, refazemos planos. Os assuntos se confundem, se misturam, são diversos. Tomamos porres de canções, de prosas, de versos e colecionamos amores. Mas cuidado, pois descarta-se os abandonos.

Somos veteranos dos bares, bêbados, abandonados, sem lar, sem vínculo, que delineando as dores com cerveja, choramos juntos, sozinhos, a tristeza. E sobrevivemos. Ah, e como sobrevivemos. Com graça, com encanto, sem canto e rimos da solidão pelas madrugadas insones, onde o céu é um quadro negro de luzes singelas que contrasta com as estrelas que sobem no gás, nas espumas e escorre pelo ralo, pelo bueiro.

Com tudo, há o amor. Sempre belo, idealizado, com os pactos fechados, nem sempre cumpridos, muitas vezes sufocado,  quase sempre sofrido, machucado. Mas nossa promessa de não chorar, para não derramar lágrimas que não são compreendidas, quase é traída quando nossos olhos, pelo calor dos bares, teimam em suar.

por Ariston Sal Junior 

O Anel de Fedora

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Fedora fora criada com todos os mimos que uma menina de sua estirpe comporta. Estudara nos melhores colégios. Educada e linda, era prendada de forno e fogão. Com seu talento nato para cozinha preparava deliciosos quitutes e doces de fazer inveja aos melhores confeiteiros da região. Além disso, produzia lindos bordados que produzia em larga escala.

No alto de seus 16 anos, essa linda donzela, filha de Alba e do Sr. Pedro Rocha, possuía quase tudo que uma menina em sua idade pode querer. Seu noivo, um jovem e bem sucedido empresário a mimava com flores, poemas e amor. Suas amigas, sempre dispostas a lhe agradar, no fundo desejavam ser Fedora.

Alheia aos estragos que fizera a filha única, Alba em toda sua altivez nata, era ainda mais bela e cheia de energia que Fedora, e, não percebia que incomodava a filha. Sim, apesar de todas as qualidades, caprichos e vontades, Fedora não se conformava em saber que sua mãe era ainda superior. Em tudo Alba era mais que ela. O lugar que sua mãe possuía em casa, principalmente em sua vida, irritava Fedora em seu íntimo mais obscuro.

Nunca, nem por um segundo a jovem deixou no ar o pérfido sentimento que nutria por sua mãe. Seu pai, homem altivo que se derretia aos encantos de sua esposa Alba, irritavam profundamente Fedora, que tinha como inimiga a ser combatida a pessoa que mais lhe encheu de amor. Sua própria mãe.

No dia do aniversário de 35 anos de Alba, Pedro Rocha presenteou sua adorada esposa com a jóia mais linda que um ourives poderia confeccionar. Um anel adornado por um delicadíssimo diamante passara a adornar as mãos de Alba e a envenenar o coração de Fedora.

– “Por quê não fui presenteada com essa jóia em meus 15 anos? Era eu quem devia possuir esse anel. Eu mereço mais do que ela”, destilava Fedora o seu veneno em silêncio.

A partir dessa data, a situação entre mãe e filha ficou insustentável. O ciúme, a raiva e a inveja que Fedora nutria por sua mãe, antes sufocada, desde o aniversário passou a quase substancial. Alba sentia que o amor de sua filha definhava a olhos vistos. Na realidade um amor forjado, jamais sentido. Fedora nunca amara sua mãe. Esse sentimento só era ofertado a si mesma. Ela nunca amou ninguém. Bastava-se. Pronto.

Alba, achando fazer o certo, cada vez mais procurava a atenção da filha e o dinheiro que a família possuía jamais fora poupado para suprir os caprichos de Fedora. A Senhora Rocha acreditava que o dinheiro poderia comprar tudo, até mesmo o amor de sua filha. De nada adiantava e o pior ainda estava por vir.

Numa tarde de primavera, no retorno de um agradável passeio com seu marido em volta do lago principal da cidade, Alba retornava para casa consumida pela alegria dos raios de sol. Absorta em seu estado de graça, não notou quando um homem aproximou-se sorrateiramente e, de súbito, encostou o cano do revolver nas costas de Pedro. A intenção era furtar as jóias, colar e anel, que Alba orgulhosamente ostentava. Na tentativa de defender a esposa, Pedro reagiu naturalmente empurrando Alba para o lado. Fato que assustou o ladrão, que em seguida disparou o revólver, descarregando os seis tiros no casal. Quatro balas perfuraram o corpo de Pedro, que chegou a ser encontrado com vida pela equipe de socorristas, mas devido aos ferimentos, faleceu a caminho do hospital.

Alba, a doce e gentil Alba falecera na hora. Dois tiros no peito. Duas vidas perdidas a troco de nada. O homem que tentou assaltá-los fugira após os disparos. Não encontraram o assassino, apesar das buscas intensivas da polícia, por tratar-se de uma família de nobres da região.

Fedora recebera a notícia da tragédia com pesar. O sentimento que tinha por sua mãe tornara-se ínfimo diante da dor da perda. Seus pais se foram para sempre. Em casa apenas os bens materiais. Bens de uma riqueza que jamais supriria o amor de seus pais. Apesar de todo o dinheiro o amor incondicional que lhe alimentava o espírito, não estaria mais ao seu lado.

No dia do velório de Alba e Pedro, toda a alta sociedade veio prestar as últimas homenagens ao ilustre casal. De pé, ao lado das urnas com os corpos, recebendo pesares de amigos e parentes, estava Fedora. Não mais aquela menina mimada, mas uma mulher, envelhecida anos em algumas horas. Só, apenas sua dor como companhia, quando chega seu noivo, que após uma breve troca de palavras de conforto, permanece ao seu lado na cerimônia – “Bonito anel”, ele disse, pra disfarçar a tristeza. Fedora caiu em prantos cobrindo o rosto com as mãos ornadas pelo anel que fora de sua mãe.

por Ariston Sal Junior
que desenvolveu esse conto a partir da frase em negrito