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Pitadas

Não é só “gosto”, é preconceito! Por William de Lucca

9 jul , 2015  

Preconceito Pitadas do Sal

Mais um texto inteligente do meu amigo jornalista William De Lucca, autor do Dez razões para NÃO aprovar o Casamento Gay no Brasil, o post mais comentado do Pitadas

Não precisa andar muito pela internet para ver gente justificando todo tipo de restrição afetiva com a desculpa mais antiga para o tal: “gosto”.

Não gostam de preto. Não ficam com gordo. Não toleram homem afeminado. Não curtem gente com deficiência. Não se relacionam com pessoas mais velhas. Não querem papo com pobre. Tudo muito bem publicizado para evitar o stress de ter de conversar com alguém que venha a fazer parte desses grupos insólitos e intragáveis. Mas não é preconceito, é “gosto”.

Não precisa ir muito longe pra perceber que esta ‘naturalização do gosto’ não se sustenta em uma análise mais criteriosa. Diversos campos de estudo, como a sociologia e psicologia, são claros em afirmar que não há nada de “natural” no nosso gosto e em como nós o expressamos. Não nascemos gostando de algumas coisas e desgostando de outras, e se não há determinismo no gosto, ele só pode ser fruto de uma construção social, em um processo que leva em conta diversos aspectos ambientais, culturais e pessoais. E como um processo de construção social, o “gosto” é passível de mudanças, de desconstruções e de reconstruções.

A doutoranda em sociologia Amanda Costa Reis de Siqueira, citando Pierre Bourdieu em um artigo, diz que gosto não é natural, e que ele é, de fato, naturalizado, e serve como meio de distinção de uma classe em relação à outra.

Ou seja, o gosto não é algo inato, mas sime talvez um dos principaissímbolo de poder, de identificação com os semelhantes e exclusão dos que não pertencem ao mesmo grupo. É um código socialmente produzido capaz de identificar e diferenciar grupos.

Se nosso gosto é construído através de filtros impostos pela sociedade, é natural que ele reflita a intolerância da mesma. Vivemos em uma sociedade misógina, machista, homofóbica, transfóbica, racista, gordofóbica, capacitista e etarista, e esse ranço de preconceito impregna em nossas expressões de afeto e nos nossos alvos de afetividade.

Por conta disso, o “gosto médio” que sempre vemos reproduzido, especialmente dentro da comunidade gay, não quer se relacionar com pessoas afeminadas, gordos, negros, idosos, transexuais ou com deficiência. Mascarando este caráter intolerante de seu próprio afeto e dando a ele um aspecto permanente e imutável, muita gente prefere dizer que esse é “seu gosto’, que ‘não controla seu tesão’, ao invés de refletir sobre o tema.

Mas se estamos dizendo que o ‘gosto’, os motivos pelos quais alguém te atrai, é algo construído, porque não poderíamos desconstruir? Dá sim. Apesar de ser um processo penoso, quando encaramos nossos afetos e como expressão preconceito através deles, podemos desconstruí-lo, gradativamente. Não é fácil, mas é necessário.

E não tem ninguém aqui falando sobre “gostar mais de uma coisa” ou “gostar menos de outra”. Todo mundo acaba tendo suas preferências, e isso não é exatamente ruim. Talvez seja isso que torne uma pessoa diferente da outra.

O problema é quando suas preferências eliminam previamente todo um grupo social da possibilidade afetiva. O problema não reside em dizer que ‘prefere loiros’, mas dizer que ‘não fica com pessoas negras de jeito nenhum’. O problema não é dizer que ‘gosta de caras sarados’, mas dizer que tem ‘nojo de gordos’. O problema não contar que adora pinto, mas dizer que ‘todo homem tem de ter pinto’. Você não está expressando seu ‘gosto’, mas está reproduzindo opressão contra grupos minoritários e vulneráveis.

Não quer dizer que você tenha de sair ficando com um representante de cada um dos grupos minoritários citados neste texto (mesmo porque, isso se configura em fetichização, tornar o outro um objeto de fetiche para que você tenha prazer por conta de uma de suas características), mas que eliminar o caráter definitivo e imutável do ‘gosto’ é importante pra você e para as pessoas que te cercam.

Você deixa de conhecer e se relacionar com centenas de pessoas fantásticas durante a sua vida por conta de ideias pré-concebidas que tem em relação a elas, mesmo sem conhece-las.

Permita-se. E não seja um babaca.

ps: apesar de ainda ser um tema controverso, a orientação sexual não é citada neste texto por haverem indícios em diversas áreas de estudo de que sua formação não é apenas cultural, mas que depende ainda de fatores biológicos e até mesmo genéticos, apesar de ainda ser uma área nebulosa para a ciência. Sendo assim, excluo a orientação sexual do rol de características passíveis de ‘gosto’.

William De Lucca
Jornalista por formação, ativista por falta de opção

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Pitadas

Levy Fidelix promove discurso homofóbico em debate

29 set , 2014  

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Entre as bizarrices que somos obrigados a nos deparar quando assistimos o Horário Eleitoral Gratuito ou os Debates promovidos com os presidenciáveis, o discurso homofóbico de Levy Fidelix (PRTB) na madrugada desta segunda-feira, 29, no debate promovido pela TV Record, foi um dos mais deploráveis.

Quando Luciana Genro (Psol) perguntou qual a sua posição frente aos direitos homoafetivos, Fidelix discorreu uma série de colocações ofensivas, preconceituosas e que incitavam a violência contra homossexuais. “Dois iguais não fazem filho”, “aparelho excretor não reproduz” e “Vamos ter coragem! Nós somos maioria! Vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los”, incitou, após até mesmo comparar gays a pedófilos.

Foram 90 segundos de discurso. Fidelix abandonou o discurso “politicamente correto” que adotou em momentos anteriores da campanha. O que se viu nessa madrugada foi uma série de impropérios de ódio aos gays. Isso em uma TV aberta. “Prefiro não ter esses votos, mas ser um pai, um avô, que tem vergonha na cara, que instrua seu filho, que instrua seu neto”, bradou sobre o fato de sua opinião o fazer perder votos.

Não satisfeito com o que já declarara, em sua tréplica continuou com seu preconceito: “Vai pra [Avenida] Paulista e anda lá e vê, é feio o negócio”. Ainda citou definindo os homossexuais como “esses que têm esses problemas” e finalizou: “que sejam atendidos no plano psicológico e afetivo mas bem longe da gente, bem longe mesmo, por aqui não dá”.

Bizarro e caricato, Levy Fidelix sempre foi visto como um “personagem” por jornalistas e eleitores. Um pseudopolítico à frente de um partido de aluguel. Agora é conhecido como um homem que incita a violência contra os homossexuais, com um discurso estúpido, demagógico e vulgar. Mas, o mais triste, é perceber que o riso da plateia e parte da população que acompanhou o debate da Record, apoiam o candidato nas redes sociais, com o discurso de que “ele teve coragem de dizer o que pensa”, provando que a violência contra os gays, infelizmente, é socialmente aceito.

Afirmo, Levy Fidelix não é corajoso, é um idiota. Deve ser responsável por seu discurso em rede nacional onde promoveu, para milhares de pessoas que assistiam, o ódio ao ser humano. Fidelix é um criminoso. E lamento os rumos dessa eleição. Ninguém repudiou o discurso deplorável de Fidelix, talvez por medo de perder votos daqueles que concordam com a sandice. Para terminar, deixo uma consideração ao fato, feita pelo jornalista Leonardo Sakamoto:

Pessoas como Levy Fidelix deveriam também ser responsabilizadas por conta de atos bárbaros de homofobia que pipocam aqui e ali – de ataques com lâmpadas fluorescentes na Avenida Paulista a espancamentos no interior do Nordeste. Pessoas como ele dizem que não incitam a violência. Não é a mão delas que segura a faca ou o revólver, mas é a sobreposicão de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna o ato de esfaquear, atirar e atacar banais. Ou, melhor dizendo, “necessários”, quase um pedido do céu. São pessoas como ele que alimentam lentamente a intolerância, que depois será consumida pelos malucos que fazem o serviço sujo.

 

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Pitadas

Afinal, o que diz a lei contra a homofobia?

25 set , 2014  

Afinal, o que diz a lei contra a homofobia?

Afinal, o que diz a lei contra a homofobia?

Devido a enorme repercussão do post Dez razões para NÃO aprovar o Casamento Gay no Brasil, eu resolvi republicar do meu antigo Blog, da época da faculdade, um outro post sobre um tema tão debatido nos últimos anos. O texto é de autoria do meu amigo jornalista William De Lucca Martinez. Boa leitura!

Entre a extensa lista de citações do filósofo grego Aristóteles, uma é essencial para que todo este texto faça sentido: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Ser gay não é o único motivo que me faz acreditar que o projeto de lei substitutivo 122, de 2006, adiciona a discriminação aos homossexuais a lista de crimes da lei º 7.716 seja benéfico para toda a sociedade. O que me faz acreditar neste projeto é seu texto, claro, conciso e objetivo.

Ao contrário do que vociferam pastores evangélicos Brasil a fora, como Silas Malafaia e o senador Magno Malta (PR/ES), a PL122 não torna os gays uma ‘categoria intocável’. A discriminação por orientação sexual (homo/bi/trans e hetero) passa a incorporar o texto de uma lei já existente, que pune o preconceito por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero e sexo. Aprovada a modificação, a lei ganha o texto ‘orientação sexual e identidade de gênero’ como complemento.

A lei, que já cita uma extensa lista de crimes contra estas fatias da sociedade, adiciona ainda impedir ou proibir o acesso a qualquer estabelecimento, negar ou impedir o acesso ao sistema educacional, recusar ou impedir a compra ou aluguel de imóveis ou impedir participação em processos seletivos ou promoções profissionais para as pessoas negras, brancas, evangélicas, budistas, mulheres, nordestinos, gaúchos, índios, homens heterossexuais, mulheres homossexuais, travestis, transexuais… pra TODO MUNDO! Ou seja, a lei não cria artifícios para beneficiar apenas os gays, mas para dar mais garantias de defesa de seus direitos para toda a sociedade, da qual a comunidade gay está inserida.

O único artigo que cita diretamente novos direitos constituídos a homossexuais é o oitavo, que torna crime “proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãos”, deixando claro que os direitos são de TODOS, e não apenas de um grupo seleto de pessoas.

Afinal, o que diz a lei contra a homofobia?

Mas e a liberdade de expressão?

O ponto mais criticado por evangélicos, especificamente, é a perda da liberdade de expressão. Ora, onde um deputado em sã consciência faria um projeto desta magnitude e não estudaria a fundo a constituição para evitar incompatibilidades? A PL122 apenas torna crime atos VIOLENTOS contra a moral e honra de homossexuais, o que não muda em nada o comportamento das igrejas neo-pentecostais em relação a crítica. Uma igreja pode dizer que ser gay é pecado? Pode. Assim como pode dizer que ser prostituta é pecado, ser promiscuo é pecado, ser qualquer coisa é pecado. A igreja pode dizer que gays podem deixar o comportamento homossexual de lado e entrar para a vida em comunhão com Jesus Cristo? Pode, claro! Tudo isso é permitido, se há homossexuais descontentes com sua orientação sexual, eles devem procurar um jeito de ser felizes, ou aceitando sua sexualidade ou tentando outro caminho, como a igreja, por exemplo.

Agora, uma igreja pode falar que negros são sujos, são uma sub-raça e que merecem voltar a condição de escravos? Pode dizer que mulheres são seres inferiores, que não podem trabalhar e estudar, e que devem ser propriedade dos maridos? Pode dizer que pessoas com deficiência física são incapazes e por isto devem ser afastadas do convívio social por não serem ‘normais’? Não, não podem. Da mesma forma, que igrejas não poderão dizer (mesmo porque é mentira) que ser gay é uma doença mental, que tem tratamento, que uma pessoa gay nunca poderá ser feliz e que tem de se ‘regenerar’. Isto é uma violência contra a moral e a honra dos homossexuais, e este tipo de conduta ofensiva será passiva de punição assim que a lei for aprovada.

O que a PL 122 faz é incluir. Ela não cria um ‘império Gay’, como quer inadvertidamente propagar um ou outro parlapatão no Senado. A PL 122 não deixa os homossexuais nem acima, nem abaixo da lei. Deixa dentro da lei. Quem prega contra a lei tem medo de perder o direito de ofender, de humilhar, de destruir seu objeto de ódio. Quem prega contra a PL 122 quer disseminar a intolerância. E tudo que nossa sociedade precisa hoje é aprender respeito e tolerância, e descobrir de uma vez por todas que é a pluralidade que torna nossas breves existências em algo tão extraordinário.

Texto publicado originalmente em 12/04/2010
por William De Lucca Martinez

 

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