Pitadas

A B#$*%@ cor de rosa e o grelo duro do Lula

26 jun , 2018  

A B#$*%@ cor de rosa e o grelo duro do Lula

A B#$*%@ cor de rosa e o grelo duro do Lula

– Fato 1 –

Compartilho em meu feed do Facebook a charge acima, do artista Jota Camelo, brilhantemente coerente com os acontecimentos ocorridos na semana passada, na Copa da Rússia. Em seguida surge um comentário:

Faltou a camisa com a frase "mulher de grelo duro"

Em uma clara tentativa de querer incluir Lula e o PT em qualquer assunto mais polêmico, que surja na Internet, o pior é  tentar relativizar um fato deplorável protagonizado por torcedores brasileiros. A crítica é sobre o que aconteceu na Rússia e que se repete em nossa sociedade e não o que o ex-presidente disse em uma conversa telefônica, retirada de um contexto.

 

– Fato 2 –

O execrável vídeo dos torcedores,  claramente machista e misógino, assediando a repórter russa viraliza e não tardam a surgir vários homens para, como sempre, relativizar que tal gesto era “normal”, ou que estavam fazendo muito barulho por pouca(?) coisa. Uns, inclusive, tentaram argumentar que o burburinho estaria expondo “pais de família”. Aliás, relativizar atitudes erradas em nossa sociedade machista é tão comum que já vi/li mulheres, em casos de estupro, culparem a vítima.

 

O peso de uma cultura machista, advinda dos primórdios do patriarcado do cristianismo, por volta do ano 1.250 a.C., liderados por Moisés (e mais tarde por Josué), é sentido ainda hoje, em pleno Século XXI. É inaceitável que se tente calar a voz das minorias, cada vez menos silenciosas, que clamam por respeito e igualdade. Não me venha com argumentos estapafúrdios e covardes do tipo que tentem diminuir qualquer manifestação ou denúncia de machismo, racismo e homofobia, declarando que é “só uma brincadeira”. Não é!

Quanto a querer colocar na conta do ex-presidente Lula o mesmo peso dado a uma “brincadeira” machista e imbecil, chega a ser hilário, o que vi acontecer bastante no Facebook e no Twitter por aqueles que acham que vivemos em uma “ditadura do politicamente correto”, numa tentativa covarde de desviar o verdadeiro assunto em pauta, digo que a charge do Jota Camelo está irretocável. O termo dito por Lula foi em um contexto totalmente diferente. Vulgar ou não, a frase foi dita em uma ligação telefônica “vazada” entre Lula e o ex-ministro dos Direitos Humanos Paulo Vannuchi. Nela (na gravação “vazada” ) Lula defende que as mulheres do PT têm de se manifestar contra o procurador de Rondônia Douglas Kirchner. O Lula diz: “Ele batia na mulher, levava a mulher no culto religioso, deixava ela sem comer, dava chibatada nela, sabe? Cadê as mulher de grelo duro lá do nosso partido?”. Se você acha que nesse contexto há  uma equivalência mínima sequer com os relatados na charge… não tenho o que argumentar com você, mas lamento. Isso só corrobora também o momento que vivemos, dessa polarização, onde ninguém ouve ninguém.

Embora a direita tenha tentado deturpar a expressão na época, querendo torná-la vulgar (o que pode até ser, isso é uma outra discussão) e algumas mulheres, sim, se sentiram ofendidas, muitas outras, incluindo feministas, empoderadas, defenderam o uso do termo, acharam engraçado e por que não usar? Por que não pode ser interpretado como algo bom? Por que só as expressões que falam do órgão masculino como algo que dá valor às coisas (bom pra caralho, botar o pau na mesa, fulano é pica) pode ser positiva e as que se referem ao órgão feminino não? Pode ser que algumas mulheres tenham se sentido “ofendidas”, mas, muitas mulheres maravilhosas, inteligentes e bem resolvidas que eu conheço acharam a expressão divertidíssima. As atitudes escrotas, machistas e misóginas, como foram os casos que apareceram na copa da Rússia não foram engraçadas, ninguém riu. E não quero dizer que não exista machismo na esquerda, há e muito também.

Sobre o fato que vi recorrente nas redes sociais, para justificar a atitude dos idiotas da Rússia, em que tentaram argumentar que a reação é outra quando isso ocorre a repórteres homens (exemplo no vídeo abaixo) é tão leviano que dá raiva. Homens não são vítimas de violência sexual, não vivem com medo de serem estuprados, não precisam se preocupar com a roupa que usam. Isso é tão rasteiro como ser branco e dizer que sofre racismo, ou dizer que é vítima de heterofobia por ser macho.

Não tente relativizar, diminuir, abafar, desvirtuar qualquer tentativa de minorias fazerem valer a  sua voz. A culpa nunca é da vítima. E se você é um homem, branco, cisgênero, não dê sua opinião contrária quando uma questão que oprime grupos historicamente excluídos vem à tona. Ninguém te pediu. Não pense que você está sendo “inteligentão” com opinião própria, quando no fundo você está sendo apenas reacionário. Feministas, Gays e Negros não querem ser maiores ou melhores que você. As reivindicações desses não implicam na perda de suas “liberdades” ou “vantagens” que vocês possuem por séculos.

Fomos criados em uma cultura machista e isso é muito forte para mudar de uma hora para outra, infelizmente, mas que bom que certos comportamentos, antes aceitos como ” brincadeira”, “normal” não mais tolerados, não cabem. O caminho para a desconstrução está sendo percorrido, não tenha medo de percorrer essa senda. E se você se contenta em ser essa pessoa menor e está satisfeita com sua mesquinhez, parabéns, só não tente barrar a trilha para os outros.

 

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Pitadas

Não é só “gosto”, é preconceito! Por William de Lucca

9 jul , 2015  

Preconceito Pitadas do Sal

Mais um texto inteligente do meu amigo jornalista William De Lucca, autor do Dez razões para NÃO aprovar o Casamento Gay no Brasil, o post mais comentado do Pitadas

Não precisa andar muito pela internet para ver gente justificando todo tipo de restrição afetiva com a desculpa mais antiga para o tal: “gosto”.

Não gostam de preto. Não ficam com gordo. Não toleram homem afeminado. Não curtem gente com deficiência. Não se relacionam com pessoas mais velhas. Não querem papo com pobre. Tudo muito bem publicizado para evitar o stress de ter de conversar com alguém que venha a fazer parte desses grupos insólitos e intragáveis. Mas não é preconceito, é “gosto”.

Não precisa ir muito longe pra perceber que esta ‘naturalização do gosto’ não se sustenta em uma análise mais criteriosa. Diversos campos de estudo, como a sociologia e psicologia, são claros em afirmar que não há nada de “natural” no nosso gosto e em como nós o expressamos. Não nascemos gostando de algumas coisas e desgostando de outras, e se não há determinismo no gosto, ele só pode ser fruto de uma construção social, em um processo que leva em conta diversos aspectos ambientais, culturais e pessoais. E como um processo de construção social, o “gosto” é passível de mudanças, de desconstruções e de reconstruções.

A doutoranda em sociologia Amanda Costa Reis de Siqueira, citando Pierre Bourdieu em um artigo, diz que gosto não é natural, e que ele é, de fato, naturalizado, e serve como meio de distinção de uma classe em relação à outra.

Ou seja, o gosto não é algo inato, mas sime talvez um dos principaissímbolo de poder, de identificação com os semelhantes e exclusão dos que não pertencem ao mesmo grupo. É um código socialmente produzido capaz de identificar e diferenciar grupos.

Se nosso gosto é construído através de filtros impostos pela sociedade, é natural que ele reflita a intolerância da mesma. Vivemos em uma sociedade misógina, machista, homofóbica, transfóbica, racista, gordofóbica, capacitista e etarista, e esse ranço de preconceito impregna em nossas expressões de afeto e nos nossos alvos de afetividade.

Por conta disso, o “gosto médio” que sempre vemos reproduzido, especialmente dentro da comunidade gay, não quer se relacionar com pessoas afeminadas, gordos, negros, idosos, transexuais ou com deficiência. Mascarando este caráter intolerante de seu próprio afeto e dando a ele um aspecto permanente e imutável, muita gente prefere dizer que esse é “seu gosto’, que ‘não controla seu tesão’, ao invés de refletir sobre o tema.

Mas se estamos dizendo que o ‘gosto’, os motivos pelos quais alguém te atrai, é algo construído, porque não poderíamos desconstruir? Dá sim. Apesar de ser um processo penoso, quando encaramos nossos afetos e como expressão preconceito através deles, podemos desconstruí-lo, gradativamente. Não é fácil, mas é necessário.

E não tem ninguém aqui falando sobre “gostar mais de uma coisa” ou “gostar menos de outra”. Todo mundo acaba tendo suas preferências, e isso não é exatamente ruim. Talvez seja isso que torne uma pessoa diferente da outra.

O problema é quando suas preferências eliminam previamente todo um grupo social da possibilidade afetiva. O problema não reside em dizer que ‘prefere loiros’, mas dizer que ‘não fica com pessoas negras de jeito nenhum’. O problema não é dizer que ‘gosta de caras sarados’, mas dizer que tem ‘nojo de gordos’. O problema não contar que adora pinto, mas dizer que ‘todo homem tem de ter pinto’. Você não está expressando seu ‘gosto’, mas está reproduzindo opressão contra grupos minoritários e vulneráveis.

Não quer dizer que você tenha de sair ficando com um representante de cada um dos grupos minoritários citados neste texto (mesmo porque, isso se configura em fetichização, tornar o outro um objeto de fetiche para que você tenha prazer por conta de uma de suas características), mas que eliminar o caráter definitivo e imutável do ‘gosto’ é importante pra você e para as pessoas que te cercam.

Você deixa de conhecer e se relacionar com centenas de pessoas fantásticas durante a sua vida por conta de ideias pré-concebidas que tem em relação a elas, mesmo sem conhece-las.

Permita-se. E não seja um babaca.

ps: apesar de ainda ser um tema controverso, a orientação sexual não é citada neste texto por haverem indícios em diversas áreas de estudo de que sua formação não é apenas cultural, mas que depende ainda de fatores biológicos e até mesmo genéticos, apesar de ainda ser uma área nebulosa para a ciência. Sendo assim, excluo a orientação sexual do rol de características passíveis de ‘gosto’.

William De Lucca
Jornalista por formação, ativista por falta de opção

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Pitadas

Mulheres, não esqueçam… vocês são donas do próprio corpo

16 jul , 2014   Gallery

carol-rossetti-interna

Me deparei com essas ilustrações sendo compartilhadas pelo Facebook hoje e achei genial. A ilustradora mineira Carol Rossetti teve a iniciativa de combater o machismo e o preconceito que as mulheres estão sujeitas com desenhos. As ilustrações tratam desde celulite a opção sexual, passando por tatuagens, racismo e homofobia. Tantos os desenhos, quanto as frases que complementam as obras, são perfeitos. Confira a galeria, curta e o post e compartilhe essa ideia!

 

 

 

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